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Vértice#1121 de outubro de 2026

Portos em disputa, Sal e a energia que sobra

Portos disputam carga, a África lusófona se reúne no Sal, o sertão ganha uma fábrica de peças leves, a energia que sobra procura comprador e o incentivo da Sudene vai para o hotel. E quem deveria conversar com quem.

Oferecido por o próximo café que vira negócio

5 min de leitura

Fileiras de painéis solares vistas de cima
Painéis solares vistos de cima. Foto: Red Zeppelin/Unsplash

No domingo, o Brasil escolhe quem governa a partir de 5 de janeiro. Enquanto isso, o território segue tomando decisões que não esperam a urna: qual porto vai ficar com qual carga, qual cidade do interior vira endereço industrial, quem vai usar a energia que hoje sobra no Nordeste.

O Vértice do ISBR começa por um número e segue uma regra simples: cada notícia termina em quem deveria conversar com quem. É assim que a gente liga os pontos.

O número da semana: 11 vezes

O Porto Sul, em Ilhéus (BA), teve R$ 6,59 bilhões aprovados pelo conselho do Fundo da Marinha Mercante. Os três terminais que vão a leilão na B3 em 9 de dezembro, em Fortaleza, no Itaqui (MA) e em Salvador, somam R$ 582,3 milhões. Um único projeto vale mais de 11 vezes os três leilões juntos.

São duas velocidades no mesmo litoral. De um lado, terminais menores, com carga e comprador conhecidos. Do outro, um porto grande que depende da Fiol, cujo trecho entre Ilhéus e Caetité está com obras suspensas desde abril de 2025, com 75% executados. Enquanto o trilho não chega, o dinheiro grande fica no papel, e os terminais menores saem na frente.

Os pontos da semana

1. Os portos do Nordeste disputam carga, um a um

O Porto Piauí, em Luís Correia, foi alfandegado em setembro, tem parceria com o Porto de Aveiro, em Portugal, e prevê a primeira exportação de grãos para 2027. O Porto do Recife oferece de 130 mil a 135 mil metros quadrados alfandegados para a cadeia de petróleo e gás da Margem Equatorial. No leilão de dezembro, o terminal MUC04, em Fortaleza, soma R$ 429 milhões; o do Itaqui, voltado a fertilizantes, R$ 147 milhões.

Essa disputa vai ser decidida por quem tem carga: o produtor de grãos do Piauí que escolhe por onde exportar, a petroleira que vai montar base para a Margem Equatorial, o distribuidor de fertilizantes do Maranhão.

Quem deveria conversar: exportadores do interior e os interessados nos terminais que vão a leilão, antes de dezembro. Quem chega à mesa com carga combinada negocia melhor.

2. A ilha do Sal vira ponto de encontro, e o voo para o Nordeste atrasa

Nos dias 26 e 27, a IFC, braço do Banco Mundial para o setor privado, reúne na ilha do Sal, em Cabo Verde, investidores e governos de Angola, Cabo Verde, Guiné Equatorial, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe. Na pauta, corredores logísticos, agronegócio e turismo sustentável. Os seis países somam cerca de 90 milhões de habitantes e um PIB acima de US$ 350 bilhões, segundo a organização.

O voo direto entre o Sal e o Nordeste, que a Cabo Verde Airlines anunciou para 31 de outubro, ficou para 12 de dezembro: uma frequência semanal para Recife, aos sábados, com cerca de quatro horas de viagem. Até lá, a ligação regular segue sendo o voo semanal entre Praia e Recife, às quintas, retomado em maio pela mesma companhia.

Cabo Verde quer ser a porta de entrada da África lusófona e fica a quatro horas do Nordeste. Mais voos diretos encurtam o caminho para quem sair do fórum com negócio encaminhado.

Quem deveria conversar: empresas nordestinas de agronegócio e turismo com interesse na África lusófona, as câmaras de comércio com Cabo Verde e a agência de investimentos cabo-verdiana, antes de o voo começar.

3. O sertão do Ceará ganha uma fábrica de peças leves

A Magnésio Nordeste vai investir R$ 215 milhões em Quixeramobim, no Sertão Central, para produzir peças de liga de magnésio e de polímero para carros e motos. São 133 empregos diretos previstos, obras a partir do primeiro trimestre de 2027 e operação em 2028. A escolha do lugar foi justificada por posição central, estradas, porto seco em desenvolvimento, uma possível ZPE privada e a rota da Transnordestina até o Pecém.

Esse último ponto já existe no mapa: o trecho de 50 quilômetros entre Quixeramobim e Quixadá foi concluído em setembro. Nesta semana, o BNDES informou que aprovou R$ 1,28 bilhão para micro, pequenas e médias empresas do Ceará de janeiro a setembro, 22,4% acima de todo o ano de 2025, em 158 municípios.

A ferrovia deixa de ser obra e vira argumento de venda. Mas peça leve feita no sertão só fecha a conta se fornecedor e técnico também forem dali.

Quem deveria conversar: a empresa, os institutos federais e escolas técnicas do Sertão Central (fundição e injeção não se aprendem em três meses) e os pequenos fornecedores industriais da região, que agora têm expectativa de crescimento.

4. A energia que sobra precisa de fio e de bateria

O Plano Decenal de Energia até 2036, em consulta pública desde 8 de outubro, projeta que o Nordeste atraia quase 30% dos novos data centers de grande porte do país. A carga da região deve passar de 14.209 para 20.462 megawatts médios em dez anos, alta de 3,7% ao ano, a maior entre os subsistemas. O mesmo plano admite que os cortes de geração (o curtailment, quando usina eólica ou solar é obrigada a produzir menos) devem continuar em patamar parecido com o de 2026.

No dia 15, o Banco do Nordeste anunciou US$ 67 milhões, metade do BID e metade dos Climate Investment Funds, para redes, digitalização, armazenamento, baterias e hidrogênio verde. O dinheiro deve estar disponível no início de 2027.

O Nordeste já produz mais energia limpa do que consegue usar ou transportar. O data center é um dos poucos clientes com porte para pagar pela linha e pela bateria que faltam.

Quem deveria conversar: geradores com energia cortada, operadores de data center e o Banco do Nordeste, para desenhar projetos de armazenamento que já nasçam com comprador.

5. O incentivo da Sudene foi para o hotel

Na reunião desta semana, a diretoria da Sudene aprovou 19 pedidos de redução e reinvestimento do Imposto de Renda, de empresas em sete estados, que reúnem 3.902 trabalhadores e mais de R$ 220 milhões já investidos. Quase todo esse dinheiro está em três hotéis: R$ 78,6 milhões e R$ 53,9 milhões em Pernambuco e R$ 52,1 milhões em Natal, somando R$ 184,6 milhões. O Ceará teve 2 dos 19 pedidos.

Um incentivo nascido para a indústria está financiando turismo, e faz sentido: hotel emprega muita gente e não muda de cidade. A pergunta é se o Ceará está usando esse instrumento tanto quanto os vizinhos.

Quem deveria conversar: redes hoteleiras e empreendedores do turismo cearense, as entidades do setor e a Sudene, para levar mais projetos do estado à próxima reunião.

Agenda: onde as conexões acontecem

  • 25 de outubro: segundo turno da eleição presidencial.
  • 26 e 27 de outubro: II Fórum de Investimento da África Lusófona, da IFC, na ilha do Sal, em Cabo Verde.
  • 10 a 12 de novembro: World Investment Conference da WAIPA, a associação mundial das agências de promoção de investimentos, em Genebra.
  • 9 de dezembro: leilão de três terminais portuários do Nordeste na B3.
  • 12 de dezembro: primeiro voo da Cabo Verde Airlines entre o Sal e Recife.

Conexão aberta

Esta seção existe para fazer apresentações. Se você se encaixa em um dos pedidos abaixo, responda este e-mail ou fale com a gente no WhatsApp. Quando fizer sentido para os dois lados, a gente apresenta.

  • Fornecedores industriais e escolas técnicas do Sertão Central que queiram conversar com quem está chegando a Quixeramobim.
  • Quem vai ao Sal ou a Genebra saindo do Nordeste. Vamos montar uma lista para ninguém chegar sozinho.

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