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Radar · Ceará · 22 de outubro de 2026

Qair perdeu R$ 190 milhões com energia cortada e decidiu virar a própria cliente

A geradora francesa vai consumir no Pecém a energia que o sistema não consegue escoar. A conta do ISBR mostra por que o modelo deve se espalhar e onde ele pode travar.

Radar ISBR · Redação · 2 min de leitura

Qair perdeu R$ 190 milhões com energia cortada e decidiu virar a própria cliente

A Qair Brasil perdeu R$ 190 milhões até agosto com os cortes de geração, quando o operador do sistema manda usinas eólicas e solares produzirem menos do que podem. O número foi revelado pelo presidente da empresa, Armando Abreu, no Proenergia Summit. A resposta da geradora francesa é virar a própria cliente: o Grand Réseau, até dois data centers no Pecém, com potencial de 565 megawatts, primeira etapa de 150 megawatts e obras a partir do primeiro semestre de 2027, abastecidos pelas usinas renováveis da própria Qair.

Em vez de esperar a linha de transmissão chegar até o consumidor, a empresa leva o consumidor até a energia.

Armando Abreu, presidente da Qair Brasil

“No fundo, os data centers acabam por ser uma maneira de nós criarmos e ajudarmos o nosso próprio mercado.”

Armando Abreu, presidente da Qair Brasil · Foto: Conselho da Diáspora Portuguesa

A conta do ISBR

De janeiro a agosto, o Nordeste deixou de gerar 3.403 megawatts médios por causa dos cortes, segundo dados do ONS. Em volume de energia, isso equivale a cerca de seis Grand Réseau completos funcionando a plena carga, ou quase cinco vezes todos os data centers em operação no Brasil, que somam cerca de 700 megawatts.

A comparação tem um limite. O corte acontece em horas específicas, sobretudo quando sol e vento estão no auge e o consumo está baixo, e um data center consome 24 horas por dia. Não por acaso, os planos da Qair no Ceará incluem, além de eólica e solar, baterias e eólica no mar. Ainda assim, a ordem de grandeza deixa claro que não vai faltar energia para os data centers da região. O desafio é fazer essa energia chegar ao lugar certo, na hora certa.

Por que outros vão copiar

O custo de esperar ficou visível. Em 2026, 507 usinas solares do Nordeste pediram à Aneel a revogação da outorga, somando cerca de 22 gigawatts, mais do que toda a capacidade solar centralizada hoje em operação no país, segundo levantamento da Aneel. Os executivos ouvidos apontaram os cortes como causa principal. Donato da Silva Filho, CEO da Volt Robotics, cobra um plano com prazos e metas para dar flexibilidade ao sistema.

Quem tem usina operando e energia cortada tem duas saídas: esperar transmissão e baterias, ou trazer consumo para perto. O Grand Réseau é a aposta mais visível na segunda saída, e o governo federal já quer levar o modelo cearense de data centers a todo o Nordeste.

Nossa leitura

Se o modelo se espalhar, o gargalo muda de lugar. Deixa de ser energia e passa a ser autorização: licença de instalação, anuência do Complexo do Pecém, aval do Conselho Nacional das ZPEs, água, mão de obra e a relação com São Gonçalo do Amarante e Caucaia. No caso da Qair, a licença prévia da primeira fase e a viabilidade de conexão já saíram, e a licença de instalação está em fase avançada. É nessa etapa que projetos grandes ganham ou perdem um ano, e é aí que o território entra na conta.

Quem deveria conversar: geradoras com energia cortada no Ceará e no Rio Grande do Norte, desenvolvedores de data center em busca de energia firme, a ZPE Ceará e os municípios do entorno do Pecém, para que o próximo projeto chegue com energia, licença e território resolvidos ao mesmo tempo.

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