De perto · Ceará · 21 de outubro de 2026
A praia por onde o Brasil fala com o mundo
Os cabos já chegaram e os data centers estão chegando. A pergunta agora é o que acontece entre o cabo e a cidade: como a infraestrutura vira oportunidade para quem mora aqui.
Quase todo dado que sai do Brasil ou chega ao país passa por um trecho de areia em Fortaleza. Na Praia do Futuro chegam 16 cabos submarinos em operação, e por eles passa perto de 90% do tráfego internacional de dados do país, segundo o NIC.br. Nenhuma cidade da América Latina tem tantos cabos.
O próximo já tem nome: o Synapse, da V.tal, que vai ligar Nova Jersey a Praia Grande, em São Paulo, com um ramal de 460 quilômetros até Fortaleza, desenhado para a demanda de inteligência artificial e nuvem. A conclusão está prevista para o período entre 2029 e 2030.
Por muito tempo, o cabo chegava, a fibra seguia para o Sudeste e a cidade ficava com a placa na praia. Isso começou a mudar quando os dados passaram a ficar. O Mega Lobster, aberto no fim de 2025 na própria Praia do Futuro, é hoje o maior data center em operação no Nordeste, com 20 MW. No Pecém, o data center ligado ao TikTok avança, com 200 MW na primeira fase, prevista para 2027, e energia de parques eólicos. No último sábado, o ministro das Comunicações disse que o governo federal quer replicar esse modelo em todo o Nordeste.
A pergunta desta coluna é o que acontece entre o cabo e a cidade. Um data center emprega muita gente para ser construído e pouca para operar: no Pecém, a Omnia, responsável pelo projeto, prevê cerca de 3.800 empregos diretos na obra e 400 na operação. O que fica no território depende do que nasce em volta: manutenção elétrica e de refrigeração, segurança, engenharia, energia, formação técnica e empresas que transformam a proximidade dos dados em vantagem.
Um cabo dura cerca de 25 anos. É o tempo que o Ceará tem para decidir se será a praia por onde os dados passam ou a cidade onde eles trabalham.
Para quem decide
Um data center emprega muita gente para ser construído e pouca para operar. O que fica no território depende do que nasce em volta dele.
Se você tem 20 anos
Quem vai manter esses data centers funcionando a partir de 2027? Técnico em elétrica, refrigeração e redes é a formação que vai fazer falta, e ela começa agora.
Quem deveria conversar
- Operadores de data center e escolas técnicas e universidades do Ceará. O técnico que vai faltar em 2027 precisa começar a ser formado agora.
- Geradores de energia renovável e indústrias cearenses que exportam. Quem vende lá fora precisa provar energia limpa ao comprador.
- Empresas de software do Nordeste e operadores de cabos e data centers. Latência baixa só vira vantagem quando vira produto vendido daqui.
Para acompanhar
- 2º semestre de 2026: início da obra do cabo Synapse, da V.tal.
- Julho de 2027: primeiro módulo do data center do Pecém.
- 2029–2030: conclusão prevista do Synapse.
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