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De perto · Bahia · 9 de outubro de 2026

A fábrica acordou. E o entorno?

Um ano depois da inauguração da BYD, Camaçari prova que um galpão vazio pode voltar a produzir. O que ainda está em aberto é o que transforma uma fábrica em polo.

Por Paulo Sombra · 3 min de leitura

A fábrica acordou. E o entorno?
Foto: Unsplash

Quantas cidades brasileiras têm uma fábrica dormindo, à espera de um segundo dono?

Camaçari teve a sua por quase cinco anos. Quando a Ford encerrou a produção no Brasil, em janeiro de 2021, o complexo ficou de portões trancados e milhares de famílias perderam o salário de uma hora para outra. Hoje faz exatamente um ano que a BYD inaugurou sua operação no mesmo endereço, e os números do primeiro aniversário impressionam: 100 mil veículos montados nos nove primeiros meses e 8,5 mil empregos diretos, segundo a empresa, com meta de chegar a 10 mil até dezembro.

A comparação com a antiga dona pede cuidado. A Ford nunca foi apenas a Ford. Segundo levantamento publicado pelo Valor Econômico logo após o fechamento, havia 18 fábricas de fornecedores dentro do complexo e outras 12 do lado de fora. A montadora empregava cerca de 5 mil pessoas, e os fornecedores, outras 7 mil. Para cada emprego na Ford existia quase um e meio na vizinhança. Era esse anel de empresas que fazia de Camaçari um polo, e foi ele que desapareceu junto com a montadora.

A BYD trabalha de outro jeito. A empresa fabrica dentro de casa boa parte do que outras montadoras compram de terceiros, e seus executivos falam em 17 unidades industriais para produzir os componentes do carro, de baterias a motores. Se a meta de dezembro se confirmar, ela sozinha chegará perto dos 12 mil empregos que Ford e fornecedores somavam.

Para quem procura trabalho, é uma ótima notícia. Para a cidade, muda a pergunta. Um polo é feito também de empresas: a ferramentaria, a transportadora, a firma de manutenção, o pequeno fabricante de peças que cresce atendendo a montadora. Quando a cadeia vai para dentro dos portões, o emprego aparece, mas o tecido de negócios em volta não vem junto por conta própria.

Há ainda o caminho que falta percorrer dentro da fábrica. A BYD segue operando principalmente em regime de montagem, com conjuntos que chegam semiprontos da China. Soldagem, pintura e estamparia estão previstas para entrar em operação até o fim do ano, e a meta anunciada é passar de 50% de peças nacionais em 2027. O retrato de hoje aparece no balanço que a Anfavea divulgou nesta semana: dos 434 mil carros eletrificados vendidos no país entre janeiro e setembro, 72 mil foram classificados como de fabricação nacional. A entidade representa as montadoras já instaladas e tem lado nesse debate, mas a ordem de grandeza mostra o tamanho da estrada.

Nada disso diminui o que foi feito. Reabrir um complexo daquele tamanho em tão pouco tempo é raro. Também não apaga o episódio de 2024, quando trabalhadores de uma empreiteira foram resgatados pelo Ministério Público do Trabalho, lembrete de que a forma importa tanto quanto o prazo. Mas o emprego direto é a parte que a empresa controla. O entorno depende de mais gente.

Depende da escola técnica que forma profissionais para o fornecedor que ainda não chegou, do terreno licenciado em prazo razoável, do porto que funciona e de regras de incentivo que não mudem a cada governo. Depende das empresas locais, que precisam se qualificar para vender a um comprador de padrão global. Depende, portanto, de prefeitura, de estado e do empresariado da região. Nenhuma fábrica faz um polo sozinha, e cobrar da BYD o que cabe ao entorno é tão equivocado quanto aplaudir sem fazer perguntas.

Por isso, o indicador que mais vai dizer sobre Camaçari daqui para frente é quantas empresas instaladas na Bahia vendem para a fábrica, e quanto. É esse o número que deveria abrir o balanço do segundo aniversário.

A lição vale para além da Bahia. Em Iracemápolis (SP), a fábrica que a Mercedes fechou hoje pertence à GWM. Em Horizonte (CE), a antiga Troller foi reaberta como planta multimarcas. Nos três casos, o segundo dono encontrou o que dinheiro não compra depressa: gente que já sabe fazer, estrada, energia, porto. O que cada cidade faz com a segunda chance é a parte que não vem no contêiner.

Quantas cidades brasileiras têm uma fábrica dormindo, à espera de um segundo dono? E quantas estarão prontas quando ele chegar?

Para quem decide

O indicador que mais vai dizer sobre Camaçari é quantas empresas instaladas na Bahia vendem para a fábrica, e quanto.

Se você tem 20 anos

Soldagem, pintura e estamparia estão previstas para começar até o fim do ano. É trabalho técnico, e quem se forma nisso agora chega na hora certa.


Publicado originalmente no Movimento Econômico.

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